Esses dias eu fiquei pensando sobre como a gente atravessa a vida naturalmente sem perceber o momento em que uma fase acaba e outra inicia.
É mais ou menos assim: não dá pra precisar que até os onze anos e 364 dias você era criança, com doze virou adolescente, com vinte e dois adulto, etc., etc., etc.
Você se lembra do dia em que se deu por conta que não era mais criança? Esse dia existiu, por certo, mas aposto que você não celebrou, não fez um pequeno ritual, ou os adultos a sua volta também não fizeram.
Quase ninguém celebra essas coisas, e é por essas outras que a vida passa batido.
Nessas horas, admiro os índios: eles têm rituais para tudo.
Nasce um indiozinho, toda tribo cumprimenta os novos pais (até aí, bem, somos parecidos: a gente costuma visitar as novas mães e seus bebês no hospital).
O indiozinho cresce e vai para a primeira caça, mais um ritual.
A indiazinha tem a menarca, outro ritual.
E por aí vai.
A grande diferença é que os índios cultuam esses rituais de uma forma sacra, eles levam a sério, internalizam o momento. Curtem, simplesmente.
O nosso problema, como homens civilizados, foi banalizar tudo, achar que é só mais uma fase, só mais um momento.
Mas o que é a vida, afinal, senão uma sucessão de pequenos momentos importantes?
Eu mesma criei um pequeno ritual de celebração que mede três centímetros e me acompanha até o dia de minha morte: uma tatuagem no lado esquerdo das costas. Pensaram que era o quê, cabecinhas medonhas? hehehehehehhe!
Teve um dia em minha vida que eu estava sentada na sala de casa, lendo o jornal, e me caiu a ficha. Ou completou o download, como queiram, ultrajovens que estiverem lendo este texto.
Senti que a adolescência tinha acabado, eu já não era mais a mesma, senti que era uma mulher. Por tudo o que vivera, até aquele momento. Eu tinha 24 anos, neste dia.
Resolvi tatuar o ideograma chinês "mulher", marcando para sempre aquele momento. Pra mim, foi um instante muito rico.
Até hoje ouço piadinhas pela escolha do ideograma, do tipo, "ah, tá, se você não tivesse essa tatuagem, eu jamais saberia qual o seu sexo".
Que bobagem, mas eu entendo.
Entendo porque o momento era meu, e esse foi meu ritual de celebração.
Cada um pode ter seus rituais, mas seria tão bom para uma existência plena se todos os tivessem...
Pequenos rituais para viver o presente, para estar consciente.

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